A MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES - alterado
Parece que o caso mais extraordinário acontecido durante o tempo em que Frei Benedito governou o convento foi uma multiplicação de pães. É outro faro onde se vê claramente a presença de Cristo na pessoa de Benedito, acudindo os pobres e famintos.
Apesar de o convento também viver de esmolas, como sempre temos frisado, a ordem do Guardião ao irmão porteiro era clara: nenhum pobre sem atendimento. Nenhum mendigo despachado sem uma ajuda. Assim queria Benedito que se vivesse o preceito de Jesus: “Dêem de graça o que de graça receberam” (Mt 10,8)
Certa vez, ao distribuir pão aos pobres, o porteiro, Irmão Vito da Girgenti, percebeu que a fila ainda era grande, e que na cesta restavam apenas poucos pães, que davam exatamente para os membros do convento. Encerrou, então, a distribuição e despachou o resto dos pobres. O fato chegou ao conhecimento do Guardião, que intimou o bom porteiro a correr e chamar de vota os pobres que ficaram sem pão.
- “Dê aos pobres tudo o que estiver na cesta, disse Benedito, que a Providência divina achará um meio de socorrer-nos.”
Os pães, naquele tempo, geralmente eram feitos em casa. Não havia essa facilidade que temos hoje de correr a uma padaria na esquina. Aqueles pães dados aos pobres eram, então, os últimos, até o cozinheiro ou padeiro do convento fazer mais. Por isso o irmão porteiro ficou meio espantado com a ordem recebida, mas obedeceu. Chamou os pobres e pôs-se a distribuir-lhes os pães restantes. Foi aí que percebeu que alguma coisa de extraordinário estava acontecendo ali. O pão da cesta não se acabava; quanto mais ele tirava, mais aparecia. Foi uma nova multiplicação de pães, como aquela de Jesus no deserto. Espanto e alegria encheram o coração do porteiro. Terminada a distribuição, outra maravilha: na cesta ficaram exatamente aqueles pães que ele havia reservado para a comunidade. Nenhum a mais nem a menos.
Não temos outros São Benedito, mas o exemplo dele, bem como de Santo Antônio, fazem que, anualmente, apareçam muitas almas caridosas que distribuem milhares de sacos de pães aos pobres, em memória do gesto desses santos.
Fonte: Vida de São Benedito.
Pe. Aloísio Teixeira Souza / pag 58 e 59
O SANTO PRETO
Parece incrível que se tenha de discutir sobre a cor de São Benedito. Mais escurinho ou menos escurinho, que importância tem? Mas o fato é que a discussão existe. Escritores antigos, principalmente franceses, para distinguir São Benedito de São Bento, que na língua deles têm o mesmo nome – Benoît – passaram a identificar nosso São Benedito como Benoît, lê More, isto é, Benedito, o Mouro. Argumentam, então, alguns que São Benedito era mouro, não era negro, mas escuro. Mas o caso é que ninguém prova que Benedito fosse mouro. Os pais de São Benedito foram levados da África para a Sicília, mas exatamente de que região da África não se sabe.
Mais volumosa, porém, é a tradição que afirma, com Frei Diogo do Rosário, que “Benedito foi filho de pais mui tostados...e sua mãe foi uma preta escrava”.
A iconografia, que estuda o modo como os santos são representados nas suas imagens através dos tempos, sempre apresentou São Benedito na cor negra. A tese contrária nos parece, então, pouco provável. Por que, pois, vamos privar o Santo de sua linda cor de ébano? Por que desapontar milhões de negros que têm São Benedito por padroeiro, exatamente por sua cor? Parodiando os ecologistas, nós diremos: “preto porque te quero preto”.
Aqui no Brasil, onde o racismo é bem menos acentuado, a cor de São Benedito não impede que milhões de brancos lhe tenham muita devoção. Que São Benedito nos ajude a vencer os últimos resquícios do racismo, que tanto mal fez no passado e continua a fazer nos lugares onde o problema ainda não foi solucionado.
Fonte: Vida de São Benedito.
Pe. Aloísio Teixeira Souza / pag 09 e 10
ÁRVORE DO FRUTO ABENÇOADO
A árvore de que falamos são os pais de São Benedito.
Garantiu Jesus que árvore boa dá frutos bons. Ao deparar-nos com um fruto tão extraordinário como São Benedito, temos, forçosamente, de concluir pela perfeição das árvores que foram seus pais. Árvores abençoadas! Mas essas conclusões, embora corretas, não nascem de documentos, porque não os temos, ou melhor, são muito escassos. Sabemos que se chamavam Cristóvão e Diana Lercam. Eram escravos de um tal Monassero.
Notemos o nome bem cristão do pai de Benedito: Cristóvão ou “aquele que leva Cristo”, o que indica que ele também já vinha de um berço cristão. Não só ele, mas também a esposa levaram Cristo ao endereço certo, ao coração do filho Benedito, bem como de seu irmão Marcos e de suas irmãs Baldassara e Fradella.
Dizem que o irmão cometeu um homicídio, mas não conhecemos as circunstâncias. Quem sabe poderá ter sido em legítima defesa, o que não constitui crime perante Deus. A irmã Fradella morreu com fama de santidade.
Sendo Cristóvão muito bom cristão, correto e trabalhador, conquistou a confiança do patrão, que o fez capataz da fazenda e feitor dos escravos. Quando Cristóvão se casou, o patrão prometeu-lhe que seu primeiro filho nasceria livre. Assim aconteceu que Benedito, filho de escravos, nasceu livre. Mas, à semelhança de Cristo, que por nós se fez servo, também Benedito passaria sua vida como servo de todos.
Aqueles que se fazem verdadeiramente servos de Deus, por amor, também se fazem servos dos irmãos, a quem servem, vendo neles o próprio Cristo. “Tudo o que fizerem ao menos dos meus irmãos é a mim que o fazem”. Nessas palavras de Jesus está, inclusive, uma grande promessa de recompensa para nós.
Fonte: Vida de São Benedito / pag 11 e 12
Pe. Aloísio Teixeira Souza
CRIANÇA ABENÇOADA
São Benedito nasceu em 1526, segundo a maioria dos biógrafos.
Sua infância não foi diferente daquela dos meninos de sua idade e condição: uma vida pobre, humilde e simples, que passou despercebida dos outros. Mas o Espírito Santo o guiava pelos seus caminhos, para fazer dele uma pedra escolhida, preciosíssima. A semelhança do Menino Deus, o menino Benedito crescia em sabedoria, idade e graça.
Os pais também não se descuidavam dos seus deveres de educadores. Olhar vigilante, bons conselhos e, sobretudo, excelentes exemplos. Podemos dizer que Cristóvão e Diana eram espelhos de virtude, onde o Ditinho podia ver o que era uma fé viva, uma caridade ardente, oração confiante e uma verdadeira devoção a Nossa Senhora.
Não teve escola, o que não deve espantar-nos porque bem poucos eram os que estudavam naquela época. Mesmo gente rica e de classe bem mais alta que a de Benedito também não sabia ler e escrever.
Apesar disso, Benedito não cresceu nenhum ignorante, porque teve duas coisas mais indispensáveis que a escola: um lar cristão e a igreja de sua pequena São Filadelfo. A condição de pobreza da família fazia que ali todos confiassem em Deus e se abandonassem à sua Providência. Mas, ao mesmo tempo em que ali se vivia numa “Igreja Doméstica”, não se descuidavam dos deveres paroquiais. Era ali, na sua igreja-matriz, que brilhavam os exemplos da família de Benedito.
Um lar cristão e uma vida comunitária bem estruturada são o ambiente natural onde surgem as vocações religiosas e sacerdotais. Ali começou também a vocação do religioso franciscano. Benedito não foi para o convento para aprender as virtudes, mas para levá-los à perfeição.
Os pais, responsáveis pela educação dos filhos, devem aprender com os pais dos santos como conduzir seu trabalho. Por trás dos santos, sempre estiveram os bons exemplos dos pais, ou ao menos a presença de uma santa mãe.
Fonte: Vida de São Benedito / pag 13 e 14
Pe. Aloísio Teixeira Souza
SÃO FILADELFO
O nome de Benedito, nos livros litúrgicos é Benedito de São Filadelfo. Era velha tradição dos frades, agora abandonada, usar como sobrenome o nome do lugar onde nasceram. São Benedito nasceu em São Filadelfo, daí: Benedito de São Filadelfo.
O lugar mais tarde passou a chamar-se São Fratello. Querem alguns que essa mudança se tenha dado em honra do “Irmão” Benedito, que em italiano se diz Fratello Benedetto. Os religiosos leigos ainda hoje são chamados de “Irmãos” nas suas Ordens ou Congregações.
Mas não me parece que tenha sido esta a razão da mudança do nome de São Filadelfo para Fratello. Qual foi então? As informações nos é dada pela Enciclopédia Espanhola (Espasa-Calpe). São Filadelfo é um mártir cristão morto no dia 10 de maio do ano 251, a nordeste de Siracusa, na Sicília. Morreu juntamente com seus irmãos Álfio e Cirino. Mais tarde suas relíquias foram levadas para Aluntium, ao norte da ilha. É possível que somente as relíquias de São Filadelfo tenham sido tranladadas, como parece indicar o nome atual, São Fratello, que recebe a antiga Aluntium. San Fratello significaria, então, o santo irmão de Álfio e de Cirino.
Aluntium, San Filadelfo e San Fratello. Desses três nomes, oficializou-se o último, San Fratello, como é chamada até hoje a terra de São Benedito.
Fonte: Vida de São Benedito / pag 15 e 16
Pe. Aloísio Teixeira Souza
UM NOME BENEDITO
Os pais escolhem os nomes dos seus filhos, mas nem sempre são felizes nessa escolha. Ou o nome nada significa ou, quando tem significado, este não combina com o dono do nome. Sirva de exemplo a velha história do tempo de Alexandre Magno, o grande conquistador. Ele encontrou, certa vez, entre seus soldados, um que era feito de pura covardia. Aproximando-se dele, perguntou-lhe aquele rei: - “Como te chamas?”
- “Alexandre”, respondeu tremendo o infeliz.
- “Pois então, tornou-lhe o rei, muda de nome ou de comportamento.”
Verdadeiramente inspirados foram os pais de Benedito, quando lhe deram este nome, que significa bendito, abençoado. Quando a água batismal correu na fronte da criança e o sacerdote impôs-lhe o nome: “ó Ben(e)dito, eu te batizo...” a Santíssima Trindade ratificava, para o tempo e para a eternidade, aquilo que estava ali acontecendo. Hoje entendemos aquela profecia. O menino era mesmo um “bendito”.
Bendito porque estava predestinado a bendizer o nome de Deus por uma vida santa, e assim, ele mesmo se tornar um bendito.
Bendito por seus pais escravos, porque se viram libertos e remidos naquele filho que nasceu livre pela vontade do seu dono.
Bendito através dos tempos por todos os seus devotos, entre os quais estamos nós brasileiros, que tanto o amamos e veneramos.
Continuemos, pois, a bendizer a Deus, que deu ao nosso povo este nome abençoados, para ser uma fonte inesgotável de proteção para nossa vida e perseverança para nossa fé. Embora tivéssemos uma centena de santos nascidos no Brasil, certamente São Benedito seria o mais “brasileiro” de todos os santos.
Fonte: Vida de São Benedito / pag 17 e 18
Pe. Aloísio Teixeira Souza
O PASTORZINHO
Simpática profissão a de pastor de ovelhas. São homens que inspiram bondade, delicadeza, segurança e outras coisas boas. Gostaria que algum evangelista nos tivesse contado que Jesus foi pastor. E exatamente naquelas campinas de Belém, onde os anjos anunciaram aos pastores o seu nascimento.
No entanto, Jesus encarnou de um modo perfeito todas as virtudes dos pastores. Só ele pôde dizer: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10,11).
Os reis também foram chamados de pastores do seu povo, e os papas, de pastores da Igreja. O grande rei Davi foi pastor. E estava cuidando das ovelhas quando o profeta Samuel chegou a Belém para sagrá-lo rei. Libertou toda a Palestina, uniu as doze tribos de Israel e deu a paz ao seu povo.
O menino Benedito foi também pastor, ajudando o pai no cuidado dos rebanhos do patrão. Conduzir o rebanho para as pastagens, tirar leite das ovelhas, fazer queijo e requeijão são trabalhos de um pastor. também procurar alguma ovelha extraviada e estar sempre vigilante contra cães, lobos e outros animais selvagens que atacam o rebanho.
O oficio em si é simples e humilde, mas traz consigo algo de poético, de místico e alegórico. O pastorzinho Benedito aprendeu com as ovelhas sua proverbial mansidão e utilidade, já que elas nos alimentam com sua carne e leite, e nos vestem e agasalham com sua lã. Aquele que teria, no futuro, um cargo de condutor na sua Ordem religiosa, como Superior da Comunidade, preparou-se para isso como pastor.
Quando vemos a Irmandade de São Benedito, todos os irmãos vestidos de branco, marchando na procissão ou desfilando garbosamente na cavalaria, vem-nos à fantasia o pastorzinho Benedito guiando suas ovelhas. Aquele menino seria o pastor de seus irmãos, servindo-os com simplicidade, alimentando-os com seu trabalho de cozinheiro, agasalhando as crianças e os pobres, que não saiam da porta do convento.
Mais. Na paz dos campos Benedito pôde dedicar-se às coisas de Deus, pela contemplação das suas maravilhas. Ali sua alma voava para Deus naquela oração que só os santos sabem fazer. A resposta de Deus era imediata, razão por que Benedito voltava para casa cheio das consolações de Deus e robustecido na paciência, para suportar tudo, até os maus-tratos dos companheiros que, volta e meia, se implicavam com sua cor.
“Deus prepara no silêncio os seu santos”, escreveu Dom Francisco de Paula e Silva. Nesse silêncio o Espírito Santo trabalha as almas dos seus escolhidos para a missão de profetas, reis e sacerdotes. Benedito seria um pouco de tudo isso através da sua atuação cristã e religiosa no mundo.
Fonte: Vida de São Benedito / pag 19 - 22
Pe. Aloísio Teixeira Souza
LAVRAR E PASTOREAR
Lavrar e pastorear são os dois primeiros trabalhos de que fala a Bíblia, quando nos apresenta os dois irmãos Caim e Abel. Caim era lavrador e Abel pastor. Pastorear é, sem dúvida, mais agradável. Lavrar, plantar, regar é trabalho pesado e desgastante. Parece até um castigo, pois disse Deus a Adão depois do pecado: “Comerás o pão com o suor do teu rosto. Com trabalho penoso tirarás da terra o alimento de cada dia” (Gn 3,18-19)
Hoje os tratores lavram os campos e as irrigações artificiais fazem as plantas crescerem. Assim mesmo, não são todos os lavradores que podem utilizar-se desses recursos. Os pobres ainda estão na rabiça dos seus arados, cortando o chão e curtindo o sol. O salmo 125 lembra os semeadores que vão, entre lágrimas, espalhando as sementes.
Foi assim com São Benedito. O amor ao trabalho e a pobreza da família fizeram com que, logo que conseguiu suas primeiras economias, tratasse de comprar uma junta de bois e se pudesse a lavrar a terra para o plantio. Então, Benedito foi um dos muitos santos e santas que regaram a terra com o suor do rosto, para extraírem dela o pão de cada dia. Com isso ele provou ao mundo que se pode ser santo em qualquer trabalho e ocupação, contanto que se trabalhe com paciência, por amor de Deus. Benedito soube viver no seu dia-a-dia o conselho do apóstolo São Paulo: “Quer comam, quer bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”.
Até os 21 anos Benedito viveu nessa labuta, com as tristezas e alegrias que se revezam na vida dos agricultores. Estes, em geral, costumam ser muito religiosos, já que os resultados dos seus trabalhos dependem muito do tempo. Eles vivem com os olhos no céu, observando o sol e a chuva. Mas os olhos da fé vão além das nuvens: vão até Deus que fez o sol e prepara as chuvas. O salmo 64 agradece a Deus “que visita a nossa terra com as chuvas, e ela transborda de fartura”.
Será que os agricultores brasileiros sabem que São Benedito é também seu protetor? Eis aqui uma pequena oração do agricultor a São Benedito:
Ó Deus, Senhor da vinha e da messe, que nos dais o justo salário, abençoai, pela intercessão de São Benedito, os nossos trabalhos e esforços. Que nossas atividades, que alimentam a fome do mundo, contribuam para a vossa glória e para a fraternidade dos vossos filhos. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
Fonte: Vida de São Benedito / pag 23 - 25
Pe. Aloísio Teixeira Souza
BENDITO QUEM OUVE O CHAMADO DO SENHOR
Estamos em 1547. Entre o cansaço de quem tem de pegar no duro eito e as alegrias de quem colhe o que plantou, Benedito alcança seus 21 anos. Foi nessa idade que ouviu de Deus um convite para viver uma vida perfeita. Aquele “vem e segue-me” que Jesus dirigiu a tantos discípulos chegou aos ouvidos de Benedito pela voz de um santo monge eremita. Chamado Jerônimo Lanza. Moço rico e de família importante, tinha tentado ser franciscano da Ordem Primeira, mas chegou à conclusão que esta não era a sua vocação. Queria uma vida de muita penitência mesmo. Retirou-se, então, com alguns companheiros, para um sítio bem sossegado, chamado Santa Domênica (1),a poucos quilômetros de San Fratello.
Pois bem. Esse Frei Jerônimo passou, certa vez, pelo campo onde Benedito trabalhava. Um bando de desocupados estava lá, caçoando dele por ser negro. Jerônimo aproximou-se com toda a dignidade de um cristão, e sua presença já bastou para que os agressores se calassem. Observou bem Benedito e logo sentiu nele aquela marcante presença de Deus. Voltando-se depois para os caçoadores, agora modificados, disse-lhes: “Dentro em breve vocês ouvirão maravilhas a respeito deste negro que agora vocês tratam com tanto desprezo!”.
Mais tarde voltou Lanza à procura de Benedito na palhoça onde morava e lhe disse:
- “O que você está esperando, Benedito? Venda seus bois e venha para a minha comunidade”. Esse convite foi uma ordem de Deus para Benedito, que despediu-se de seus pais e, abençoado por eles, ajuntou sua mala e seguiu a voz que o chamava, a voz de Deus.
Como a despedida de São Francisco do lar paterno, este foi um dia de alegria e de vitória para Benedito. Achou o que tanto procurava: a liberdade para servir unicamente a Deus, por entre trabalhos, jejuns, orações e penitências.
O ramo franciscano ao qual pertencia a comunidade de Frei Lanza chamava-se Irmãos Eremitas Franciscanos. Penitência ali não faltava, tantas e tão severas que nada ficavam a dever à vida penitente dos eremitas do deserto da Tebaida. Basta dizer que ali, em Santa Domênica, se jejuava três vezes por semana! São Francisco, lá do céu, comprazia-se vendo a Pobreza na cela, no hábito que vestiam e na comida que comiam: alguma verdura que plantavam e alguma outra coisa que ganhavam de esmola. São Francisco fundara uma Ordem mendicante, isto é, que vivia essencialmente das esmolas que ganhava. Monges pobres entre os mais pobres.
Nas longas vigílias de oração Benedito podia contemplar o céu estrelado, como outrora o rei Davi na sua juventude, e rezar com ele: “Os céus proclamam a glória do Senhor, e o firmamento, a obra de suas mãos” (Sl 18A).
A contemplação da grandeza do universo coloca o homem humildemente ajoelhado perante o Deus infinito que tudo criou sem ajuda de ninguém.
Uma boa descrição da vida eremítica encontramos nos celebérrimo livro de espiritualidade, chamado Imitação de Cristo: “Oh, quão rigorosa e retirada vida viveram os santos padres do deserto! Quão rigorosas penitências praticaram! De dia trabalhavam e passavam as noites em continua oração. Mesmo trabalhando não interrompiam sua oração mental. Nada queriam do mundo. Apenas tomavam o necessário para a vida, e lhes era pesado servir ao copo ainda nas coisas necessárias”. (IC.LI. Cap. 18)
Até parece que o autor da Imitação de Cristo estivera em Santa Domênica, observando a vida de São Benedito, para depois escrever isto...
(1) Santa Domênica é comemorada no Martirológio Romano a 6 de julho. Mártir sacrificada em Nicomédia, na perseguição de Diocleciano.
Fonte: Vida de São Benedito / pag 26 - 29
Pe. Aloísio Teixeira Souza
VIDA RELIGIOSA E CONTEMPLATIVA
O decreto do Concilio Vaticano II, Perfectae Caritatis, lembra que “desde os tempos primitivos da Igreja, existiram homens e mulheres que se puseram a seguir a Cristo com maior liberdade, por meio da vida consagrada a Deus. Esta vida consagrada consiste em seguir a Cristo que, sendo virgem e pobre, pela obediência até a morte na cruz, redimiu e santificou os homens. Assim os religiosos, por inspiração do Espírito Santo, ou passaram a vida na solidão ou formaram grupos religiosos para servir à Igreja em muitas frentes de trabalho” (PC 1).
São Benedito escolheu, a principio, a vida consagrada a Deus numa família religiosa de vida contemplativa. A esses e essas que vivem assim, disse o papa Paulo VI: “Uma atração irresistível vos arrasta para o Senhor. Empolgados por Deus entregai-vos à sua ação soberana, que vos eleva para Ele e nele vos transforma, enquanto vos prepara para aquela contemplação eterna, que constitui a nossa comum vocação” (Evangélica Testificatio, 8).
Esse privilégio de se viver já aqui na terra, mergulhado na contemplação de Deus, como fazem os bem-aventurados no céu, leva esses religiosos a uma ascensão espiritual diária. Mas isso não beneficia unicamente a eles, pois, como afirmou Paulo VI, os contemplativos contribuem para a extensão do Reino de Deus pelo testemunho de suas vidas e por uma misteriosa fecundidade apostólica (ET 8).
Milhões de outras pessoas bem mais estudadas, mais ricas e mais poderosas não contribuíram para a glória de Deus e o crescimento do seu Reino sequer com uma parcela do que realizou o pobre e humilde São Benedito. Essa é a “misteriosa fecundidade” a que se refere o Papa, que está repetindo o que disse o Concílio (PC 7).
Na experiência dessa vida contemplativa, em Santa Domênica, viveu Benedito cinco anos antes de ser admitido a professar seus votos solenes, o que foi feito com licença do papa Julio III. Agora sim, era um religioso no sentido pleno da palavra. Mas, por mais rigorosas que fossem as regras de vida dos Eremitas de São Francisco, Benedito já dera mostras de viver ainda mais rigorosamente do que estava prescrito. Uma única refeição pobre por dia já lhe parecia muito, e o chão duto para dormir não lhe parecia tanto sacrifício.
Fonte: Vida de São Benedito / pag 30 e 31
Pe. Aloísio Teixeira Souza
RELIIOGOSO DESINSTALADO
Nada o monge e o eremita apreciam tanto como ficarem sossegados no seu cantinho. Por força de sua vocação, eles não têm a mesma mobilidade dos missionários, que hoje estão aqui, amanhã ali, conforme as urgências pastorais os reclamam. Mas os religiosos que vivem em grupo, inclusive os de vida contemplativa, sabem que seus superiores podem transferi-los quando julgarem necessário, e o religioso não irá opor resistência, por isso ele tem voto de obediência. É então que o bom religioso medita aquela palavra da Carta aos Hebreus: “Não temos aqui cidade permanente, mas aguardamos a eterna” (Hb 13,14)
Mas por que estamos falando em desinstalação? Alguém veio desalojar os eremitas de Santa Domênica?
Sim, mas não vamos culpar ninguém. Ou então vamos culpar a própria santidade de Benedito. A proximidade entre o eremitério e o povoado levava muita gente a procurar os frades, principalmente São Benedito. Iam lá pedir uma bênção, um conselho, uma oração pelas suas necessidades e doenças. Muitos desses visitantes começaram depois a jurar que alcançaram graças, que receberam milagres por intermédio de Frei Benedito. Levas e mais levas de gente começaram a baixar em Santa Domênica. Pobres frades! Lá se foi o seu sossego. Não atender o povo parecia-lhes desumano. Se atendiam, não lhes sobrava tempo para seus deveres religiosos. É verdade que o problema atingia mais os freis Lanza e Benedito, mas os outros também se sentiam incomodados. Foi então que tomaram a difícil resolução: ir embora dali.
Pobres como eram, não tinham muita coisa para levar. Cada um arrumou sua trouxa e pé na estrada. Lá vão os novos Abraão para a terra que Deus ainda ia destinar-lhes. No coração esperanças, sobressaltos e saudades de Santa Domênica... Continuaram com a devoção a ela. Suas relíquias estavam em algum lugar da Sicília, mas essa ilustre Mártir não era dali. Foi martirizada no tempo de Diocleciano e talvez fosse grega, com o nome de Ciríaca.
Mas para onde caminhava a comunidade de Lanza? – Para o vale de Nazana, onde Frei Benedito e seus companheiros passariam oito anos. Para frente viriam Mancusa e San Pellegrino. O fato é que Deus permitiu essa desinstalação porque precisava dos testemunhos de vida e dos bons exemplos daquelas santas criaturas para converter e salvar outra gente.
Fonte: Vida de São Benedito / pag 32 - 34
Pe. Aloísio Teixeira Souza
A CANCEROSA DE MANCUSA
Nada temos da presença de Frei Benedito e seus companheiros em Nazana – oito anos por lá – senão a certeza que ele passou fazendo o bem, crescendo em santidade cada dia, dando frutos pela perseverança. De lá, vieram os santos eremitas para Mancusa, a noroeste da ilha, perto de Carini, a quinze quilômetros de Palermo. Escolheram, para assentar o eremitério, uma região inóspita, rochosa e cheia de cavernas, que serviam de abrigo aos lobos e outros animais selvagens que infestavam os arredores. Os frades estavam avisados do perigam que corriam, mas pensaram: “É assim que queremos, porque o medo das feras o povo nos dará sossego”. Com efeito, o local era evitado pelos habitantes de Mancusa e outros caminhantes, que o contornavam temerosos. No entanto, uma especial proteção de São Francisco desceu sobre seus frades, de tal modo que os animais selvagens não os molestaram. Os lobos de Mancusa conviveram pacificamente com os eremitas, como outrora o lobo de Gubbio, que São Francisco amansou. Lá podiam aqueles franciscanos rezar, com bastante realismo, o versículo do Cântico dos Três Jovens, que diz: “Feras e rebanhos, bendizei o Senhor!” Urros de feras e louvores dos monges subiam diariamente ao céu, bem como ressoavam nas grutas da região...
- “São santos”, dizia o povo. “Sim, são santos”, acrescentavam outros, “e por isso podem ajudar-nos”.
- “Há por lá um tal Frei Benedito que faz milagres”, dizia um terceiro.
Aos poucos, como aconteceu nos outros eremitérios, o povo aprendeu o caminho para lá. Perderam o medo dos lobos, que, aliás, são animais assustados e covardes. Só atacam quando muito desesperados pela fome. Aproveitando um dia em que Frei Benedito atravessava o lugarejo, numa casinha chamaram-no para ver um doente.
- “Não posso fazer muita coisa por ela, explicou o Santo, porque não sou sacerdote. Mas posso fazer-lhe uma visita e rezar por ela”.
- “Pois venha, Frei, imploraram os parentes, está sofrendo muito”.
Frei Benedito entrou. Bendita hora! Os anjos no céu repetiram as palavras do Cristo na casa de Zaqueu: “Hoje entrou a salvação nesta casa”.
- “Me acode, Frei, gritava a pobre mulher, roída viva por um câncer no seio, que se alastrava terrivelmente. Me dá uma bênção, por amor de Deus!”
Condoído pelas dores daquela pobre enferma e pela aflição dos seus familiares, Benedito aproximou-se do leito, rezou com a enferma e demais presentes, animou-a a ter fé em Deus e depois, a pedido dela, traçou o sinal da cruz sobre a chaga do seio. O milagre aconteceu. Instantaneamente a mulher ficou curada. Pode-se imaginar o susto e a alegria de todos. Benedito incentivou-os a darem graças a Deus e a Jesus Cristo, seu Filho, cujas mãos misericordiosas se fizeram presentes ali. Logo em seguida o Santo virou nos pés, fugindo de qualquer agradecimento ou louvor. A história desse milagre repercutiu muito. Verdadeiras romarias começaram a dirigir-se para o eremitério, exatamente atrás de São Benedito. Todos queriam conhecer aquele homem extraordinário a quem Deus dera o dom de curas. Começaram a trazer doentes em macas e carroças, e aqueles ermos ficaram povoados. Centro de romaria. Exatamente o que os frades temiam. Acabaram-se o sossego e o silencio de que a comunidade necessitava para levar avante sua vida contemplativa. O velho problema de Santa Domênica veio, mais uma vez, às mãos de Frei Lanza. Depois de várias reuniões, resolveram mudar-se. Para onde? Deus providenciará.
Fonte: Vida de São Benedito / pag 35 - 38
Pe. Aloísio Teixeira Souza |